sábado, agosto 29

Crítica: Apocalypse Now (1979)



Por Kaio Feliphe


"A loucura de Coppola originou um dos maiores filmes de todos os tempos."


O texto a seguir contém spoilers
Aconselha-se a leitura apenas para quem viu o filme.

“Meu filme não é um filme. Meu filme não é sobre o Vietnã, ele é o Vietnã. É como foi. Uma loucura. E nós o fizemos do modo como os americanos estavam no Vietnã. Estávamos na selva, éramos muitos. Tínhamos acesso a muito dinheiro, muito equipamento. E pouco a pouco, ficamos loucos.”
Francis Ford Coppola, Festival de Cannes 1979

Foi assim que Coppola definiu Apocalypse Now [Apocalypse Now, 1979]. Um filme que transcende os rolos de 65 mm e retrata a completa insanidade que foi a Guerra do Vietnã.

Levemente baseado na obra de Joseph Conrad, Heart of Darkness, o filme conta a história do Capitão Willard (Martin Sheen), que recebe uma missão de ir aos confins do Camboja para assassinar o Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), que teria ficado louco e comandava como bem entendia sua tropa, não respeitando as ordens do exército americano.

Só que Apocalypse Now não é exatamente sobre a guerra do Vietnã, mas sim sobre a mente humana. Como o próprio General Corman diz ao entregar a missão a Willard, todo homem tem o seu ponto de ruptura (seu breaking point), onde ele simplesmente perde o controle de sua própria mente. E na viagem de Willard rio acima para encontrar Kurtz, vemos vários desses homens que já ultrapassaram seu breaking point, e estão completamente fora de si.

Na primeira parada, Willard e seus soldados encontram o Tenente Kilgore (Robert Duvall), nome que brinca com as palavras kill e gore, já indicando a sua natureza. Nela, Willard vê a primeira das insanidades da guerra do Vietnã. Kilgore e sua tropa desumanizam completamente os vietcongues. Não mostram empatia, compaixão ou qualquer outra coisa; eles simplesmente os matam.

A grande ironia é que Kilgore se vê como um salvador. Em vários momentos vemos helicópteros e caminhões levando mulheres e crianças feridas. Na cabeça de Kilgore, seus soldados estão fazendo o bem, eliminando o inimigo; só que, ironicamente, eles são a causa de todo aquele caos.

Coppola ressalta isso no lindo segmento da Cavalgada das Valquírias. No meio da sequência dos helicópteros em formação indo ao ataque, Coppola joga algumas cenas do vilarejo que vai ser atacado. Mulheres sentadas fazendo cestas artesanais e crianças que, aparentemente, voltavam da escola. Kilgore tenta protegê-los atacando com bombas de napalm. A loucura se completa quando ele se “recompensa” surfando. É por isso que Kilgore luta, pelo amor ao combate, à carnificina e pela recompensa.

O cheiro da gasolina era cheiro de vitória. Não achar nenhum maldito corpo era um troféu para ele. E, com um tom nostálgico, completa que um dia a guerra vai acabar.
"Eu amo o cheiro de napalm pela manhã. Uma vez, nós bombardeamos uma colina por 12 horas. Quando acabou eu fui lá dar uma olhada. Eu não achei nenhum maldito vietcongue. Mas o cheiro, sabe? O cheiro de gasolina, por toda a colina... Cheirava a... vitória. Um dia essa guerra vai acabar."
A segunda parada de Willard é numa estação do exército onde irá acontecer um show das coelhinhas da Playboy. O local é como um oásis para aqueles soldados onde, por alguns minutos, eles poderiam matar a saudade de casa. Só que eles acabam atacando as próprias coelhinhas. Seu desejo de voltar para casa, sair daquele inferno era tão grande que se chegou ao ponto de atacar inocentes americanos. Não havia mais a distinção, era cada um por si.

Até aqui Willard tinha mostrado poucas expressões de emoção. Só que, ao pedir a um comandante daquele local um pouco de combustível e ele, amigavelmente, tenta explicar que era um dia muito movimentado com muitos barcos, Willard, em seu primeiro momento de expressão, tenta agredi-lo. Willard estava disposto a encontrar Kurtz, e nada poderia atrasá-lo.

O próximo ponto é a ponte Do Long. Um dos pontos mais perigosos e a divisa entre o Vietnã e o Camboja. Soldados carregando malas e pedindo para irem embora, atirando nos vietcongues tentando proteger a ponte que é construída e destruída num ciclo doentio, completamente afetados mentalmente. Willard vaga por esse ambiente psicodélico, sabendo que todos aqueles estão fadados à loucura.

A última parada do barco é na fazenda dos franceses. A sequência que só é vista na versão Redux de 2001 é sublime. Ao chegar perto da fazenda, uma cortina de fumaça encobre o barco. Num ambiente quase onírico, Willard se junta aos franceses para jantar e passar a noite. 
“Vocês estão lutando pelo maior nada da história!”
É assim que um dos franceses definiu a Guerra do Vietnã. E como não concordar? Soldados, onde muitos são apenas adolescentes (Clean, personagem do na época jovem Laurence Fishburne, tinha apenas 17 anos), são mandados para longe de casa para enfrentar o “inimigo” por simplesmente nada. E a frase ganha mais força depois do que vimos até aqui. Uma sucessão de insanidades por nada.

“(...)
Aqueles que passaram
De olhos diretos, para o outro Reino da morte
Recordem-nos - se de todo - não como almas
Perdidas e violentas, mas apenas
Como os homens ocos
E empalhados.”
Trecho de The Hollow Men, poema do escritor americano T.S. Eliot

Por fim, Willard encontra o esconderijo de Kurtz. Um lugar que destoa de todo o resto do mundo. Um reino em que o ser humano vive como se nunca tivesse existido qualquer tipo de civilização. Animal, no sentido mais bruto da palavra. Willard volta ao passado viajando rio acima e, pouco a pouco, vai se tornando o próprio Kurtz.

No começo do filme, Willard é um homem oco. A guerra sugou completamente a sua vida, a sua sanidade. A cena de abertura, com o rosto de Martin Sheen sobreposto por explosões de napalm na selva do Vietnã é o retrato de sua mente perturbada. Willard não pertence mais a sociedade; ventiladores são helicópteros de guerra, qualquer barulho no meio da madrugada é alguém tentando matá-lo, e sua segurança é uma arma debaixo de seu travesseiro. Após receber sua missão, Willard é empalhado gradativamente. Sua mente vai cada vez se tornando mais parecida com a de Kurtz e, só após passar pelo reino da morte, Willard chega ao seu destino.

Apocalypse Now é um monumento. O auge artístico e criativo de Coppola e da Nova Hollywood. Uma experiência cinematográfica tão poderosa que o próprio Coppola quase foi a loucura (ou foi) durante a sua realização. Uma obra que transcende qualquer barreira e finca a sua mensagem na mente de qualquer um que, de alguma maneira, se envolveu nela; seja dirigindo, atuando, escrevendo ou assistindo. Com certeza, uma das maiores realizações artísticas da humanidade.

Nota: 10.0/10.0








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sábado, junho 20

Crítica: Corrente do Mal (2014)


Por Kaio Feliphe

"Bom exemplo de como se fazer terror."

Infelizmente, o cinema de terror norte-americano (principalmente o mainstream) dos últimos anos se tornou um cinema comum, monótono. Os filmes lançados sempre têm a sua oferta de terror baseada em sustos baratos e previsíveis. Não se cria um clima de tensão, uma atmosfera que deixa o espectador apreensivo; os diretores sempre apelam para jump scares que não assustam mais ninguém.

Só que de vez em quando aparece um filme como Corrente do Mal [It Follows, 2014], que fundamenta seu terror na atmosfera. Atmosfera essa que é bem semelhante aos clássicos setentistas e oitentistas do gênero, como Halloween – A Noite do Terror [Halloween, 1978] e A Hora do Pesadelo [A Nightmare on Elm Street, 1984]. O subúrbio de uma cidade grande, um grupo de adolescentes, a câmera voyeurística passeando pela vizinhança e a trilha-sonora (maravilhosa, por sinal) que contribui na criação do clima.

David Robert Mitchell, diretor do longa, cria seu filme a partir de uma premissa interessante. Uma entidade paranormal te persegue e, para se livrar dela, precisa transmitir sua maldição para outra pessoa, transando com ela. Muito se fala de que essa premissa é uma alegoria às DST (doenças sexualmente transmissíveis). Pode até fazer sentido, mas não é a ideia central. O sexo é um elemento clássico do cinema de horror. A imagem do ato carnal é parte intrínseca da estética do gênero, tanto que grandes momentos do terror são cercados pelo sexo, como em O Bebê de Rosemary [Rosemary's Baby, 1968] e A Morte do Demônio [Evil Dead, 1981], por exemplo.

Mas diferente de outros filmes, Corrente do Mal não se dedica ao visual, à imagem. Nem do sexo e nem das mortes. O que interessa é o resto, o que leva a tais circunstâncias. A fuga da maldição e a relação que se cria entre os personagens. Aliás, é bem interessante a interação entre os personagens durante todo o filme. Parece que Detroit é uma cidade fantasma que tem apenas os amigos como habitantes. Isso fortalece o clima onírico que o filme apresenta.

O horror propriamente dito da obra é muito bem construído. A grande ameaça é um ser que te persegue para sempre e apenas caminha, lentamente. Imagina, estar em qualquer lugar do planeta e mesmo assim saber que tem algo que, vagarosamente, caminha em sua direção para te matar. E aliado a isso, você, o amaldiçoado, é o único que pode ver a tal criatura. É uma ideia bastante aterrorizante e bem aproveitada por Mitchell. Por exemplo, o grande momento do filme é a cena na praia, onde os cinco amigos estão sentados e, nas costas da personagem principal, aparece alguém caminhando no horizonte em direção a ela. Como nenhum dos outros podem enxergar a criatura, o espectador é o único que vê e sabe que o perigo se aproxima. Esse momento hitchcockiano de usar o espectador como testemunha dos eventos do filme é um achado, uma das melhores cenas do gênero dos últimos anos.

Porém, a narrativa do filme talvez seja o seu ponto negativo. Mitchell trabalha o longa sem um clímax, um pico de adrenalina e tensão no espectador. O diretor tenta criar um ritmo constante de tensão, sem grandes variações. O problema é que não se consegue instituir esse clima contínuo. A cadência do filme é um pouco irregular, principalmente no segundo ato, onde há um flerte com o road movie.

O final de Corrente do Mal pode ser visto também como um esboço da vida sexual de um jovem. É muito fácil se identificar com Paul. O moço tímido que é apaixonado por Jay e que chega ao ponto de arriscar a ser morto por um fantasma só para ter um momento amoroso com ela. Uma bela analogia sobre o quão aterrorizante o sexo pode ser para um adolescente.

Corrente do Mal é um pequeno diferencial no marasmo do terror americano. No meio de remakes e filmes pouco originais, o novo trabalho de David Robert Mitchell leva o espectador ao verdadeiro terror. O terror atmosférico, onde todos os elementos fílmicos contribuem para a construção climática. E é esse terror que realmente deixa o espectador envolvido. Será que vão demorar pra aprender isso?

Nota: 7.5/10.0




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sábado, março 21

9 filmes selecionados: sobre Guerra

Por Kaio Feliphe

“- Ain't war hell?”
Fala de um personagem no filme Nascido Para Matar

Desde os seus primórdios, o ser humano está em guerra. Combates por territórios, por influência política, por ideologias... Vários foram os motivos para que algum embate bélico acontecesse.

Só que a guerra não acarreta apenas danos materiais aos povos envolvidos, seus soldados são completamente afetados pelo inferno psicológico que é um campo de batalha.

E o cinema sempre mostrou, de variadas formas, os efeitos catastróficos da guerra no ser humano. Desta forma, o E Aí, Cinéfilo, Cadê Você escolheu nove filmes que retratam o horror que é a guerra e que, infelizmente, é tão inerente à raça humana.

 9.  Pecados de Guerra, de Brian de Palma (1989)

8. Mortos que Caminham, de Samuel Fuller (1962)

7. Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow (2008)

6. Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood (2006)

5. Nascido para Matar, de Stanley Kubrick (1987)

4. Noite e Neblina, de Alain Resnais (1955)

3. Lawrence da Arábia, de David Lean (1962)

2. O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata (1988)

1. Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)

sábado, fevereiro 21

Crítica: Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014)


Por Maurício Owada

"A memória de conquistas recentes,
de direitos irrefutáveis"

Enquanto alguns exaltam os heróis americanos que empunham a arma e um objetivo ilusivo, temos a memória de homens que utilizaram da não-violência e do grande debate da segregação racial, como Martin Luther King Jr., um ativista que pregava a igualdade entre as etnias, assim como a palavra de Deus em seus cultos. Com grande poder oratório, seus discursos são os mais conhecidos, entre eles "I have a dream", aonde a chama de esperança de novos e melhores tempos eram desejadas de forma tão intensa.

Com pouquíssimos filmes sobre o ativista, Selma: Uma Luta Pela Igualdade (Selma) retrata a marcha de milhares de pessoas, não só negros como também brancos simpatizantes da causa, saindo da cidade de Selma até Montgomery, no Estado do Alabama, pela direito do voto. A diretora Ava DuVernay retrata de forma sóbria e sem espetáculo de violência, ao mesmo tempo que filma com intensidade as agressões desses homens e mulheres, velhos e jovens, assim como suas reações a repressão, e sua direção de atores calca mais em um olhar mais intimista do ativista e daqueles que o cercavam, do que grandes discursos embalados por um trilha-sonora inspiradora, que já foi feito por diretores negros em outros filmes do tema, como Spike Lee e até, Denzel Washington. Ava sai do lugar comum, não utiliza tanto uma trilha convencional e insere R&B e Rap, como a música Glory.

David Oyelowo trás um personagem forte de ar complacente, encarna um Luther King que às vezes, quase se abate pelo racismo enraizado, que parece nunca ter um fim. Contando com uma gama de bons coadjuvantes, tendo ainda Carmen Ejogo, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., Tim Roth e Giovanni Ribisi, outro ator que brilha (um pouco menos que Oyelowo) é Tom Wilkinson, com uma postura mais encolhida para viver o presidente Lyndon B. Johnson, seu papel não aparece no roteiro apenas como referência histórica, mas também um alicerce de todos os acontecimentos.

Paul Webb explora em seu roteiro os diversos pontos de vista da marcha, desde os planejamentos e estratégias para atingir o objetivo com a marcha, ensinando pra muita gente que mesmo reivindicações necessitam de inteligência para que se vire o jogo contra autoridades reacionárias, até a utilização de intertextos para mostrar a espionagem que o FBI exercia em Luther King, assim como as manobras políticas para reprimir a manifestação. O roteirista destrincha os bastidores históricos e constrói de forma plena seus personagens principais, onde o protagonista vive entre o peso de sua missão e o desejo de uma vida plena, uma busca pela paz de espírito com a situação do mundo e saber do seu destino já nos livros de história trás a sensação de um homem que lutou por conquistas que ele mesmo não desfrutou.

Selma é forte em seu tema, reacende uma questão que infelizmente ainda não adormeceu, é presente na nossa sociedade e às vezes, defendida por discursos reacionários tão absurdos mesmo para um final de século XX. Demonstra a crueldade da segregação, a ignorância do preconceito e as circunstâncias trágicas e insistentes de uma sociedade que ainda não aprendeu a se acostumar com um outro indivíduo com a cor da pele diferente.

Nota: 8,5/10,0




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Crítica: O Jogo da Imitação (2014)

Por Maurício Owada

"Apesar de charmoso, o grande valor artístico 
está na atuação de Benedict Cumberbatch"

O que define ser uma pessoa normal? Normal é ter todos os braços, ser saudável e conversar e socializar naturalmente? Gostar do sexo oposto e gostar de assuntos típicos do seu sexo? Não são questões levadas muito a fundo por O Jogo da Imitação (The Imitation Game), mas Alan Turing, interpretado por um brilhante Benedict Cumberbatch, cheio de nuances e olhares inexpressivos que escondem um tormento na alma e desejos reprimidos, carrega todos esses conflitos e demonstra o medo de um indivíduo de ser condenado pela maioria, ser enxergado como pária e ser execrado pelos demais.

Talvez por isso, Alan se demonstra uma pessoa tão afastada e anti-social, enfatizando a arrogância de sua genialidade em matemática e na habilidade de resolver enigmas. Ao mesmo tempo que o roteiro aborda o trabalho secreto dele para o serviço de inteligência britânico, ajudando a construir o primeiro computador da história, afim de decodificar o Enigma, código usado pelos nazistas para mandar mensagens de guerra para definir estratégias.

A trilha minimalista de Alexandre Desplat denota os melhores momentos do filme, utilizando-a como forma de construção de clima, não de emoção, agregando um requinte diante de conflitos tão fortes, como um desejo pulsante e reprimido as lágrimas guardadas com força diante de um olhar frio fingido, ao medo de expressar suas emoções mais internas. A montagem monta a narrativa a entender o passado do personagem e as atitudes depois de adulto, como por exemplo, ele chamar o computador de Christopher e ao longo do filme, esse fato se torna mais significativo.

Cumberbatch gagueja e abusa dos trejeitos, mas jamais soa caricato em sua arrogância ou sua homossexualidade, numa atuação sutil aonde acerta em trazer um homem que se esconde e se esquiva das relações humanas. Keira Knightley tá competente como a mulher que conduz Alan além de sua matemática, para levá-lo a se relacionar e entender algo tão ilógico como o ser humano, aonde os resultados não são condizentes com os métodos de resolução.

O Jogo da Imitação é uma produção britânica charmosa, possui uma mão segura na direção e um roteiro bem estruturado, mas como todo longa da Terra da Rainha, não vai muito longe do que foi descrito nos livros em um filme realizado de forma correta, porém competente na construção do conflito e dos personagens. Uma cinebiografia que honra um homem outrora condenado por quem é, esquecido pelo que fez.

Nota: 6,0/10,0




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terça-feira, fevereiro 17

Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)


Por Maurício Owada

"A relação da arte, entretenimento e crítica
num filme com alguns excessos, mas feito com esmero técnico"

Quando Crepúsculo dos Deuses termina com Norma Desmond (Gloria Swanson), ensandecida caminhando em direção à câmera, percebíamos a fragilidade das almas humanas mascaradas nas grandes telas que recheavam as salas todos os dias naquela época, quando o cinema era um programa de entretenimento rotineiro - a Era de Ouro da indústria hollywoodiana. Atores e atrizes vendidos como produtos nas telas como heróis para as grandes massas que consumiam pipoca diante de histórias agradáveis ou eletrizantes, dependendo do gosto do público.

Iñárritu e seus três roteiristas resgatam o espírito de Billy Wilder, trazem o olhar crítico e ácido sobre todos os elementos da indústria cinematográfica atual, desta vez sob o olhar de Michael Keaton/Riggan Thomson, que anos atrás fora uma grande estrela quando fez Batman/Birdman, mas que ultimamente via sua carreira em baixa, esquecido pela mídia, fora dos trending topics, esnobado pela crítica especializada devido a vida dedicada à uma indústria que faz filmes para lucrar, a mesma que o deixou de escanteio e então, decide fazer o maior trabalho de sua carreira, que a impulsione e o leve a ser ovacionado: um filme sobre ele e a indústria/uma peça de teatro - esse paralelo de filme e realidade é denotado pelo retrato do cinema atual e a busca de celebridades por obras de pretensões mais artísticas para serem levados a prêmios de prestígio como o Oscar.

As grandes indicações do filme e principalmente do ator principal reforça toda a ironia que Iñárritu retrata num humor negro que se desenrola em um quarteirão que envolve o teatro, que serve de palco para todos os personagens envolvidos na peça que Riggan escreve e dirige - um salto artístico que muitos enxergam com desconfiança e desdém. Filmado como se tudo fosse um único plano-sequência, Iñárritu utiliza de closes em objetos para dar transição para outro local, mas pela utilização excessiva, acaba havendo exageros de câmera, mas que serve de propósito artístico para captar as atuações quase como um teatro, aonde os atores interagem nos corredores do camarim para lá e para cá como se fosse tudo uma peça, aonde as paredes não são limites para a câmera, que passeia pelo cenário e foca sua atenção em cada coisa que encontra pelo caminho, ainda servindo de testemunha para as ilusões espetaculares de Riggan.

Birdman é um humor negro transgressor e não poupa a indústria e suas "celebridades" e nem a famosa crítica nova-yorquina, conhecida pela exigência e pelas críticas tanto engrandecedoras quanto esmagadoras. Alejandro González Iñárritu traz um panorama de um homem que busca o retorno de um prestígio maior do que já teve antes, um homem que enxerga numa peça de teatro, o degrau para algo além da própria fama, mas do reconhecimento. Irônico, para um filme que concorre ao Oscar.

Nota: 9,0/10,0





Trailer:


sexta-feira, fevereiro 13

Sessão Curta+: Jammin' the Blues (1944)

Filme: Jammin' the Blues
Direção: Gjon Mili
Roteiro: ---
Gênero: Musical
Origem: EUA
Duração: 10 minutos
Premiação: Oscar de melhor curta-metragem em 1945.
Sipnose: Este curta-metragem da Warner Bros. é uma sessão de jam (termo que define uma apresentação de músicos sem ensaio prévio ou, jazz depois da meia-noite - Jazz After Midnight) que reúne diversos músicos afro-americanos, incluindo Lester Young. Com uma iluminação escura e com um estado de espírito que correspondesse à música, o filme foi inovador em sua época e foi uma vitrine para artistas e músicos menos conhecidos que não podiam, de outra maneira, se apresentarem ao grande público.

*Dica: aperta no item da lateral do vídeo para expandir a imagem.

Filme:

quarta-feira, fevereiro 11

Crítica: Sniper Americano (2014)


Por Kaio Feliphe

"Desmitificação."

Filmes americanos com temática bélica sempre causam polêmicas pelo já conhecido patriotismo exacerbado dos ianques. Guerra ao Terror [The Hurt Locker, 2008], A Hora Mais Escura [Zero Dark Thirty, 2012] e O Resgate do Soldado Ryan [Saving Private Ryan, 1998] são alguns exemplos. Claro que nem sempre a crítica a tais obras é coerente; muitos são mal entendidos em sua mensagem. E o novo filme de Clint Eastwood, Sniper Americano [American Sniper, 2014], é o mais novo (e incompreendido) caso.

O filme conta a história de Chris Kyle, um atirador de elite da marinha norte-americana que é idolatrado pelas forças armadas do país. Elevado ao posto de lenda pelos seus feitos, Kyle tem aproximadamente 160 assassinatos em seu nome, além de outros 255 não confirmados.

Olhando simplesmente por esse resumo da vida do personagem a ser retratado e sabendo do histórico nacionalista do povo americano, é compreensível pensar que seria apenas mais um dos filmes de guerra onde o exército triunfa sobre o "mal" e a bandeira americana tremula imponente sob a luz do sol, numa imagem épica e ufanista sobre a superioridade dos EUA em relação aos outros povos.

Mas esse pré-conceito simplesmente se esvai ao ler o nome do diretor e produtor da obra. Um homem que tem no currículo filmes como Cartas de Iwo Jima [Letters From Iwo Jima, 2006], Gran Torino [Gran Torino, 2008] e Os Imperdoáveis [Unforgiven, 1992], trabalhos sensoriais onde não existem heróis e vilões, onde a distinção entre "bem" e "mal" é extremamente tênue, e onde a violência é tratada de forma cuidadosa, mostrando sua origem e como ela corrói e transforma seus personagens, não faria um trabalho raso assim. E Sniper Americano não decepciona.

A narrativa do filme é completamente linear. No início, somos apresentados a infância de Kyle; e é bem interessante como temos uma base bem sólida de sua criação com poucos minutos de projeção. Kyle nasceu num típico lar texano, com alta influência religiosa e educação rígida, principalmente por parte de seu pai. Em uma cena, o pai de Kyle dá um sermão a seus dois filhos sobre os tipos de pessoas que existem na nossa sociedade. Segundo ele, são três: as ovelhas, que são os cidadãos comuns e indefesos; os lobos, que são as ameaças à sociedade e às ovelhas; e os cães pastores, encarregados de proteger as ovelhas dos lobos. O pai enaltece que ele não criou nenhum de seus filhos pra ser ovelha ou lobo; e os pequenos flashes que mostram Chris protegendo seu irmão mais novo (de forma violenta, diga-se) de um outro garoto comprovam a tese. É essa característica de Kyle que dita toda a narrativa do longa.

Depois de fracassar como cowboy, Kyle descobre que seu destino é, realmente, proteger as pessoas. Com isso, ele ingressa na marinha americana. E é nesse momento que sua vida muda completamente. Ao ver na televisão o ataque às torres gêmeas, o cenário que seu pai contou está completo. O povo americano (as ovelhas) está sendo atacado pelos iraquianos (os lobos), e é dever de Kyle (como cão pastor) proteger seu país a todo custo.

A partir de então, a lenda começa a nascer. Seu prestígio como um exímio atirador de elite aumenta a cada morte, só que isso vem a um custo. Com suas constantes viagens ao oriente médio, Kyle fica distante de sua família e amigos. E essa dicotomia é extremamente bem trabalhada por Eastwood. Chris é adorado no seu trabalho, mas para isso ele teve que abandonar toda sua vida na América. Kyle não tem um relacionamento saudável com sua esposa durante o período da guerra, além de ser ausente na vida de seu irmão caçula. Porém, é ovacionado por seus companheiros de combate e é um verdadeiro ícone para todos. Ao mesmo tempo, situações de guerra o afetam seriamente. Em dois momentos específicos, o atirador se depara com a obrigação de matar uma criança. Obviamente, isso o atinge fortemente.

Esse é outro conflito interno do personagem vivido por Bradley Cooper, que entrega uma ótima atuação. Kyle se julga um cão pastor (em certo momento, ele diz que só se espera se encontrar com o Criador e justificar cada tiro que deu) e até se culpa por ver tantos companheiros morrerem no campo de batalha e não conseguir salvá-los. Mas, igualmente, ele não se sente confortável com as atitudes que seu trabalho obriga a fazer. Em uma cena, um soldado o encontra e o agradece por ter salvado sua vida. Kyle desvia o olhar, responde com poucas palavras, se sente incomodado com aquilo. Chris tem orgulho de ter salvo tantas vidas, mas a forma como ele às salvou e aquelas que ele não conseguiu o perturbam profundamente.

São essas discussões que destroem qualquer possibilidade de Sniper Americano ser um filme ufanista. Eastwood não exalta o mito (ou lenda) Chris Kyle, ele o humaniza. O atirador de elite exaltado por todos é um homem assombrado pelos fantasmas da guerra. A guerra que o afastou de sua família, de seus amigos e de seu lar, que fez com que fizesse coisas que não queria, que fez com que visse companheiros morrerem e que, pouco a pouco, acabou o matando também.

Eastwood desmitifica a lenda. Chris Kyle foi vítima da violência tão comum aos filmes do diretor, a violência que é quase inerente a seus personagens, que os afetam fisica e psicologicamente e que não distingue mocinhos de vilões. Sniper Americano é um belo estudo de personagem e, no final das contas, um filme anti-guerra. Ninguém sai ileso de um campo de batalha. A guerra pode acabar, mas ela o perseguirá para sempre. Não existem vencedores no combate, apenas sobreviventes de um pesadelo. E nem mesmo as lendas fogem à regra.

Nota: 8.0/10.0





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quarta-feira, fevereiro 4

Crítica: Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo (2014)


Por Maurício Owada

"Narrativa nebulosa sobre um fato nebuloso"

Sempre fomos acostumados a ver filmes sobre esportes relacionados a superação e a vitória, mas e quando ela cheira a tragédia e frustrações? Foxcatcher não é um filme de esporte e muito menos, uma lição de superação e talvez por isso não tenha grandes indicações ao Oscar, a não ser pela direção e atuações. Não é um filme que a Academia goste muito, principalmente pela densidade dramática acerca de uma tragédia: o assassinato do campeão olímpico de greco-romano Dave Schultz por John Du Pont, membro de uma das famílias mais ricas dos EUA.

Bennett Miller constrói uma trama de pouquíssimas palavras e olhares e expressões falam mais alto, mas não claramente. O roteiro não busca respostas sobre as circunstâncias do assassinato, diante disso, vemos dois personagens conversando, mas jamais ouvimos o que falam, sons abafados por uma janela ou um vidro e o mérito de Max Futterman e E. Max Frye são de demonstrar a nebulosidade da relação entre os irmãos Schultz (vividos por Channing Tatum e Mark Ruffalo) e o excêntrico bilionário John (encarnado de forma sombria por Steve Carell) e o que acarretou na terrível tragédia.

O início do filme trás imagens de arquivo da família Du Pont, que sempre demonstrou um apego por esportes. John faz parte de um tradicionalismo americano, um mecenato vindo de herança e a fazenda Foxcatcher simboliza todo o estado mental do personagem de Carell, que se tornou um centro de treinamento anos mais tarde. Ao mesmo tempo, há uma certa repulsa nas tradições de sua família, já que os esportes praticados por seus antecessores eram típicos da elite, enquanto a luta greco-romana representa o lado mais animal de Du Pont, que por sua vez, encontra em Mark (Tatum) uma amizade que ultrapassa os limites de intimidade e subentende um desejo homossexual. Apesar do destaque nos irmãos Schultz, boa parte da climática perturbadora está na exploração psicológica de John Du Pont, nebuloso como a fotografia fria e acinzentada.

John Du Pont exalta o ideal americano em seus discursos e falas, mas ao fundo, é repreendido por ele e o usa como forma de ser notado pela mãe, interpretada por Vanessa Redgrave, que exala os últimos suspiros de uma formalidade aristocrata que John despreza, assim como seus simbolismos, como os cavalos e os esportes "estúpidos" praticados, outrora, por sua família. O vídeo-propaganda sobre a fazenda Foxcatcher também se torna um objeto que denota a máscara que cobre o lado deprimente e perturbador do local, como se a falsidade daquilo tudo se tornasse mais evidente ao cobrir, ao invés do contrário.

Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo (Foxcatcher) não é um filme catártico, o seu ato final soa gelado como a neve que ocupa a cena, aonde o sangue escorre e a fumaça da ponta da arma que disparou, se dissipa no ar gélido, como se fosse um suspiro de raiva e frustração. O olhar inexpressivo de Carell no final não denota frieza, tampouco um arrependimento, mas um vazio - uma alma oca, buscando preencher com alguma utilidade na sociedade e ao país, como uma busca incessante por um papel importante - ser um grande homem de grande histórias, como seus antecedentes de grande fortuna e construir uma imagem que o seguisse sempre, tentando moldar o jovem Mark aos seus conceitos de vitória. Como sair vitorioso, se a alma humana já começa derrotada?

Nota: 10/10




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segunda-feira, fevereiro 2

O Desafio dos 365 Filmes em Um Ano - 5ª Semana

Por Maurício Owada

Entre mais alguns filmes nesta semana, fiz um apanhado de mais longas indicados ao Oscar, principalmente as animações indicadas, mesmo o ignorado Uma Aventura Lego, cuja história inventiva acerca dos brinquedos LEGO não foi reconhecida pela Academia.

Filmes sobre rádio-novela, um suspense de Alfred Hitchcock também rechearam a semana, que foi bem produtiva. Na próxima semana, teremos ainda mais filmes que estão na etapa final da temporada de premiações, com a concorrência acirrada entre Boyhood e Birdman.

#26 - Bem-Vindo, Mr. McDonald (1997) - Rajio no Jikan

Nota: 9/10

Direção: Koki Mitani

Entre a liberdade criativa, os egos de estrelas, problemas técnicos e a culturalização americana massificada no Japão, Mitani faz um delicioso e divertido filme sobre a gravação de uma rádio-novela. Após ganhar o concurso de roteiro na rádio, uma dona de casa vê seu roteiro ser mudado drasticamente para satisfazer os atores que fazem parte do programa e também os patrocinadores. Com um trabalho de câmera primoroso e uma grande gama de atores bem dirigidos e engajados numa divertida história, em um texto tremendamente teatral e cheio de acontecimentos absurdos e reviravoltas. Um deleite para quem quer ver um filme pra rir e relaxar, mas ainda assim, com um trabalho de ótima qualidade. O mais curioso é ver o ator Ken Watanabe, conhecido pelos personagens fortes e olhares sérios como um caminhoneiro ouvinte da rádio-novela que usa chapéu de cowboy.

#27 - Os Boxtrolls (2014) - The Boxtrolls ~~ (Maratona de Premiações)

Nota: 7/10

Direção: Graham Annable e Anthony Stacchi

Uma charmosa animação, com uma história adorável. Com um visual que remete a filmes de Tim Burton, com cenários que remetem ao expressionismo alemão, todo torto e fora do espaço real, junto com um trabalho de iluminação contrastante em cenas mais escuras. Personagens adoráveis e um típico vilão c
aricato, a modelagem dos personagens animados em stop-motion e suas expressões nos fazem duvidar da técnica de tão bem trabalhado. Porém o roteiro é bem simples e não tem nada que o torne mais memorável, mas ainda assim, acerta pelo cuidado com o visual e por um tom bem leve e uma trama divertidíssima, com uma mensagem contra o preconceito e pela ganância sem sentido.

#28 - Uma Aventura Lego (2014) - The Lego Movie ~~ (Maratona de Premiações)

Nota: 8/10

Direção: Phil Lord e Christopher Miller

Uma das animações mais criativas do ano passado, o filme brinca com as possibilidades do brinquedo para criar um desenho cheio de referências e sacadas diante do conceito do Lego, aonde a mensagem final demonstra a importância da infância e da imaginação proveniente. Assim como a trilogia de Toy Story e Detona Ralph!, Uma Aventura Lego apela para o saudosismo atemporal, da infância, das histórias inventadas, das soluções fáceis e o deus ex machina que a gente inventava em cada minuto como uma reviravolta nas tramas que a gente criava em nossa cabeça, com os bonequinhos como personagens e as peças como os grandes cenários ou como as navezinhas mais legais e rápidas do universo.

#29 - Pacto Sinistro (1951) - Strangers on a Train

Nota: 9,5/10

Direção: Alfred Hitchcock

Hitchcock foi um diretor que sempre moldava o texto e o tom a sua maneira de ser. A intrigante história de um homem que comete um assassinato a "favor" do outro e ainda, cobra para que o outro faça o assassinato dele cai como luva nas mãos de Hitchcock. Uma das coisas que, vendo sua filmografia, percebe-se... é quanto o cineasta tinha interesse em personagens com desejos reprimidos e obsessões incontroláveis, como o personagem de Robert Walker, que fixa seu olhar frio cheio de sede de sangue em suas vítimas. Um personagem cuja silhueta de terno e chapéu é sempre notada, além de uma personalidade peculiar. Não era a toa que o chamavam de Mestre de Suspense... até o próprio Hitchcock.

#30 - Sniper Americano (2014) - American Sniper ~~ (Maratona de Premiações)

Nota: 7/10

Direção: Clint Eastwood

A trajetória de Chris Kyle, um dos atiradores mais mortais da marinha americana, segue na leva de filmes de guerra modernos, na luta contra o terrorismo no Oriente Médio. Bradley Cooper fica mais forte e toma trejeitos texanos para viver o atirador, vivido com competência. Um homem que sai de sua terra para "defender o país" toma proporções dramáticas, mas o americanismo presente no tratamento do personagem principal, dos terroristas e do atirador rival, que são tratados de forma arquetípica, mas o roteiro de Jason Hall acerta ao criticar a política dos EUA mandar os jovens a guerra, ao invés de cuidar de seu próprio território. Bem conduzido por Clint, demonstrando ser um cineasta ainda fortemente atuante na indústria, demonstra força no drama e nas cenas de ação. O que incomoda apenas é a falta de um olhar mais crítico, como se acovardasse diante dos problemas da relação dos EUA com os outros países... como se importasse apenas o que eles fazem no próprio quintal.

#31 - Leviatã (2014) - Leviafan ~~ (Maratona de Premiações)

Nota: 10/10

Direção: Andrey Zviagintsev

Segundo Thomas Hobbes, o estado de natureza, aonde haveria "a guerra de todos contra todos", seria superada por um governo central e autoritário, que governaria absoluto e tomaria todo o poder para si - o Leviatã, que sob diversas formas, atuaria nos moldes deste governo. Na Rússia, dominada por um governo corrupto integralmente, o Jó, que é descrito por um padre, encarnado metaforicamente no papel de um homem que vê sua casa ser retirada pela prefeitura para fins comerciais, além dos problemas familiares que começam a tomar conta, Kolia se encontra com um 'monstro' que está disposto a engoli-lo, em uma série de tempestades no meio de um mar revoltoso. Para complementar, o filme coloca a 'força divina' ao lado deste Leviatã, representado por uma Igreja aliada a um governo corrupto, a mesma que condena num sermão em seu final, as ações de um Estado deteriorado que vê pena em arruinar a vida de um homem por um pedaço de terra. No final, só se vê ruínas das pessoas e dos valores.

#32 - O Conto da Princesa Kaguya (2013) - Kaguya-hime no Monogatari ~~ (Maratona de Premiações)

Nota: 10/10

Direção: Isao Takahata

Se Miyazaki impressa o mundo real no mundo de fantasia, Isao Takahata sempre adquiriu outra dinâmica: imprimir o mundo real nas suas animações, ou envolvê-las com fantasia. Assim como seu último filme, Meus Vizinhos, os Yamadas, Takahata demonstra seu gosto por traços e cores mais minimalistas, assim como em Only Yesterday. A adaptação do conto do cortador de bambu, que faz parte do folclore japonês, o cineasta desenha em traços que lembram uma gravura, assim como as cores aquareladas, a história de uma princesa que cresce livre nas montanhas floridas e cheias de animais e se deprime quando muda para a capital, vivendo em uma imensa e fechada mansão. A animação é primorosa e os movimentos dos personagens, principalmente da princesa Kaguya quando bebê, só denota a dedicação e o brilho de um estúdio que nos trás sempre animações encantadoras. Mais uma obra-prima de Isao Takahata.