terça-feira, janeiro 20

Crítica: Relatos Selvagens (2014)



Por Wendell Marcel


"O que esperar do cinema argentino?"

Talvez o novo filme do jovem diretor Damián Szifron seja uma representação muito interessante do que se constitui o cinema argentino hoje, o texto visual que faz sucesso não apenas no seu país, mas na América Latina e que chega, com muito entusiasmo, às premiações de Hollywood. O filme de Szifron, ou como queira chamar um interessante apanhado de crônicas modernas sobre as relações humanas na urbanidade, é sobretudo um momento sublime da Argentina, desde outro grande clássico de sua cinematografia dos novos anos, O Segredo dos Seus Olhos

As tramas de Relatos Selvagens são estudos acerca da selvageria humana, a raiva, tentando investigar através de um texto delicioso "causos" onde o ser humano, em todas as etiquetas possíveis, provocam ao seu redor ações explosivas, motivadas por um sentimento em comum, a vingança. Esse mesmo sentimento é o ponto de partida para duas histórias, uma que inicia o filme, com muita graça e por uma perspectiva sustentada no humor negro, inigualavelmente cru no que consta sua crítica sobre os atos terroristas nas Américas; e uma no último ato, na análise sociológica do que vem a ser o discreto charme da burguesia (tomando emprestado de Buñuel), igualmente retratado, por outra trama, em Festa de Família

segunda-feira, janeiro 19

O Desafio dos 365 Filmes em Um Ano - 3ª Semana

Por Maurício Owada

A meta desta semana vai ser oito filmes diferentes. Mas antes, tem que se focar no assunto de que 365 filmes por ano não vale exatamente pela quantidade, mas pela qualidade de como vê o filme. Infelizmente, não vemos o cinema como deveria ser visto sempre: no cinema.

Hoje temos canal de filmes na TV a cabo, torrents, DVDs, serviços via streaming etc. Tudo hoje possibilita a busca e acesso a filmes que antes, teríamos dificuldade de achar, sejam por trabalhos primorosos da Criterion que resgata velhos clássicos ou a Versátil, que trabalha em obras de pouco apelo comercial que não tem espaço no mercado de vídeos.


sexta-feira, janeiro 16

Crítica: Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)


Por Maurício Owada

"A música mostrada não apenas como ofício,
mas como forma de demonstração da obsessão pela perfeição"

A comparação com Cisne Negro (Black Swan, 2010) é inevitável, ambas as obras lidam com jovens tentando ser perfeitos em seus ofícios, ainda na flor da juventude, sofrendo atingir a perfomance perfeita com muito suor e sangue, e um grande desgaste emocional. Em Cisne Negro, todo o suspense psicológico eleva ao clímax catártico e trágico. O final de Whiplash não exala tanta tragédia e drama no desgaste emocional do aspirante a baterista de jazz Andrew (Miles Teller, monstruoso) ao ápice do seu talento, sob a sombra de um regente que lida com seus músicos como um general, com tortura psicológica e às vezes, agressão física, numa atuação brilhante do já veterano ator J.K. Simmons, como Fletcher.

terça-feira, janeiro 13

O Desafio dos 365 Filmes em Um Ano - 2ª Semana

Por Maurício Owada

Na segunda semana, não foi bem sucedida o trabalho de assistir um filme por dia ou pelo menos, sete filmes em sete dias.

Isso será recompensado na próxima semana

#5 - Brother - A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles (2000) - Brother

Nota: 6/10

Direção: Takeshi Kitano

Com uma narrativa meio problemática ou estranha, a estória de Aniki (Kitano) que, após o massacre de sua família no Japão, decide visitar seu irmão nos EUA, começando por lá uma nova família de Yakuzas. Além da violência estilizada, toda ela é trabalhada pelo cineasta com um incrível esmero, mas seu roteiro perde o interesse da metade para o final e a direção de atores é confusa, havendo um desequilíbrio nas atuações, deixando os atores japoneses mais verossímeis, enquanto os americanos soam tremendamente estereotipados com diálogos repetitivos.

#6 - Doméstica (2012) - Doméstica

Nota: 9,5/10

Direção: Gabriel Mascaro

O documentário é revestido pela relação de empregado/patrão a partir do olhar de sete adolescentes sobre a vida e o convívio com as empregadas domésticas, cada um com uma realidade diferente, o que trás para o documentário uma tridimensionalidade incrível, nos faz conhecer estórias de vida que passaram por sofrimentos e alegrias. O que talvez problematiza é o fato dos jovens não terem os créditos como diretores, pois já que cada câmera tem um "olhar autoral", principalmente do último, que passeia a câmera no álbum de fotos da mãe e da empregada quando crianças ao som de Bob Dylan e uma tentativa de entrevista com a empregada sobre sua relação com a patroa, tentando descobrir quais fatores sociais há por trás daquele vínculo.

#7 - O Predestinado (2014) - Predestination

Nota: 8/10

Direção: Michael e Peter Spierig

Uma cobra comendo o próprio rabo. O que vem primeiro? O ovo ou a galinha? Talvez você já mate o filme nos primeiros minutos, mas a nuvem se torna mais densa e os propósitos de seus personagens cada vez mais nebulosos. Inspirado num conto de uma lenda da ficção-científica, Robert A. Heinlein, este filme é o exemplo perfeito de uma trama intrigante e cheio de surpresas contado de forma refinada e fica anos luz a frente de qualquer trama escrita por Christopher Nolan, apesar do filme não ter a mesma elaboração visual do diretor, mas sua direção de arte reproduz um futurismo misturado com um ar retrô. O Predestinado é daqueles que ficará dias matutando, tentando relembrar cada parte da trama para montar a peça que se monta novamente e novamente... e novamente... e novamente... E Ethan Hawke arrebenta, mas quem brilha é Sarah Snook.

#8 - Não Matarás (1988) - Krotki Film O Zubijaniu

Nota: 10/10

Direção: Krzysztof Kieslowski

Retirado de um dos episódios de uma série de 10 filmes feitos para a TV polonesa, conhecida como Decálogo, reconhecido pela crítica. O quinto mandamento de uma hora adquire mais 20 minutos (como não vi o corte da TV, não poderei fazer comparações), mas se vê em seus últimos momentos na fase polonesa, o estilo de Kieslowski filmar, tudo acontece devagar, objetos de cena e momentos aparentemente comuns adquirem uma simbologia forte na construção de seus personagens, além da reflexão do próprio fato de matar, aonde um jovem mata um taxista friamente e o Estado mata o condenado friamente. Um tipo de ciclo vicioso alimentado por uma sociedade acinzentada, com um céu amarelado e morto, como um cadáver em decomposição. O trabalho de luzes e sombra do cineasta atinge uma poética verdadeira de um mundo melancólico aonde a existência da vida é lidada por valores impregnados pela sociedade.

#9 - Whiplash - Em Busca da Perfeição (2014) - Whiplash ~~(Maratona de Premiações)

Nota: 9,5/10

Direção: Damien Chazelle

Jazz, sangue e suor se combinam num embate de Andrew (Miles Teller, descomunal) em se tornar um dos melhores bateristas do mundo, se inspirando nos grandes nome do jazz, vivendo sob a tutela de um rígido e pouco ortodoxo professor e condutor, Fletcher, vivido com monstruosidade por J.K. Simmons (um veterano que finalmente tem uma certa indicação ao Oscar e uma possível premiação). Ambos os atores estão em um nível de entrega tremendamente alto e Teller ignorado nesta temporada é uma afronta ao talento prodígio. Uma direção incrível e uma montagem rítmica e enérgica levam o frenesi de um solo de bateria ao ápice da catarse em seu final, com um virtuosismo técnico que se mantém camuflado diante das atuações e do roteiro bem desenvolvido. Damien surge como um novo cineasta, jovem ainda e que tem muito a oferecer para o cinema.

#10 - The Babadook (2014) - The Babadook

Nota: 8/10

Direção: Jennifer Kent

Terror excepcional numa época aonde é valorizado apenas a violência gráfica e os sustos fáceis, mas a diretora estreante bebe da fonte de Kubrick, tendo Essie Davis encarnando uma versão de Jack Nicholson em O Iluminado, além de outras referências. Jennifer preza o trabalho com os atores, aonde a atriz Essie e o garoto Noah Wiseman nos puxam para o pesadelo sobrenatural/psicológico que eles enfrentam. Com o acerto de não explicar a criatura-título, a trama embarga no melhor do terror, evitando os pulos da cadeira pra deixar o espectador grudado na poltrona, a transformação psicológica sugerida pela imagem do que mostrar o sangue arreganhado, espirrando na cara do espectador. Um terror psicológico de alta qualidade, que não é original, mas que brilha pela excelente condução.


sexta-feira, janeiro 9

Sessão Curta+: ¡Una Carrerita, Doctor! (2011)

Filme¡Una Carrerita, Doctor! 
Direção: Julio O. Ramos
RoteiroJulio O. Ramos
Gênero: Drama
Origem: Peru
Duração: 10 minutos
Sipnose: Teimoso médico atendente de emergência, Ramon Moran tem que dirigir um táxi para dar fim às despesas, na cidade de Lima (Peru), que desafia constantemente seu orgulho e ética de trabalho.

*Dica: aperta no item da lateral do vídeo para expandir a imagem. Legendas em inglês.

Filme:

terça-feira, janeiro 6

Crítica: Meu Amigo Totoro (1988)


Por Maurício Owada

"Miyazaki trás nesta animação todo o espírito
do olhar infantil perante o mundo"

A fantasia é um elemento sempre presente na nossa infância, seja no que lemos, assistimos ou brincamos. Quando somos criança, somos estimulados por uma imaginação que visa cada objeto como um elemento fantástico de um cenário projetado na nossa mente. Um graveto vira uma espada, um pano de cortina vira uma capa etc.

A historia é sobre duas irmãs que vivem no campo com o pai, enquanto a mãe está no hospital tratando de um câncer, o que faz com que elas a vejam poucas vezes. Um dia, a irmã mais nova encontra no quintal, uma pequena criatura que a leva uma toca, se encontrando com uma outra criatura, maior e de uma simpatia de tamanho semelhante, chamado Totoro. Através dele, as duas meninas embarcarão numa aventura contagiante, em meio a conflitos familiares.

domingo, janeiro 4

O Desafio dos 365 Filmes em Um Ano - 1ª Semana

Por Maurício Owada

Um desafio popularizado no meio cinéfilo nos últimos anos, foi tentar assistir 365 filmes em um ano, basicamente, um filme por dia... TODO DIA.

Ela aderiu na vida de muitos outros cinéfilos afora, aonde o que importa não é a quantidade em si, mas a grande variedade de obras vistas durante um período de tempo, que ajuda a enxergar o cinema além do próprio entretenimento.

Um dos editores deste blog tentará este desafio, postando toda semana, cada filme visto e outros também revistos, estes sendo colocados a parte.

E comece o ano com muitos filmes:


#1 - Big Man Japan (2007) - Dai Nipponjin

Nota: 7/10

Direção: Hitoshi Matsumoto

Uma homenagem aos filmes e séries de kaiju em forma de um mockumentary, contando com cenas típicas do humor japonês, nonsense e quase anárquico.






domingo, dezembro 14

Crítica: O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014)


Por Maurício Owada

"O último adeus a Terra-Média no cinema"


*Este post evitará qualquer menção ou comparação com O Senhor dos Anéis, independente da relação próxima devido ao universo literário que dividem

Estranho um filme que termina sem um embate final, assim como esse embate abre outro filme, deixando uma colcha de retalhos no final do segundo capítulo e no começo do outro (como se fosse seriado), já que as conclusões são óbvias. O embate entre Bard (Luke Evans) e Smaug (voz de Benedict Cumberbatch) é empolgante, porém logo é ofuscada pela batalha iminente entre os cinco exércitos do título da última parte de O Hobbit. Segue-se a batalha pela Montanha e suas riquezas, mostrando Thorin (Richard Armitage) cego pelo poder e pela posse da Pedra Arken, que tem o mesmo poder destrutivo da alma e da mente que o Um Anel. Aliás, se foi dito que seria evitado qualquer comparação com a premiada trilogia que apresentou a Terra-Média, O Hobbit apresenta a "futura ameaça" que Sauron proporcionará.

sexta-feira, dezembro 12

Crítica: O Poderoso Chefão: Parte II (1974)


Por Maurício Owada

"Caminhos semelhantes e destinos distintos
da família Corleone"

Apesar do livro homônimo de Mario Puzo abranger apenas a trama do primeiro filme, o que o estúdio da Paramount esperava era lucrar mais com a saga da família Corleone, ficando novamente incumbido da missão de escrever e dirigir para Francis Ford Coppola. Com um significativo aumento do orçamento e da liberdade criativa, conquistada pelo sucesso d'O Poderoso Chefão. O que o cineasta e autor (que virara roteirista em Hollywood após seu best-seller) montam é um recorte de um pedaço do livro, que conta a história de origem de Don Vito Corleone, mas destacam a condução de Michael no posto de chefe dos Corleone, tendo que lidar com conflitos familiares (nos dois sentidos do contexto da trilogia) e o governo em seu encalço.

domingo, dezembro 7

Crítica: O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003)


Por Maurício Owada

"Um final épico, uma obra-prima do gênero,
de uma obra-prima da literatura"

Eis que chega a conclusiva e catártica parte da trilogia inspirada nos livros mais aclamados do mestre da fantasia, J.R.R. Tolkien. Peter Jackson conclui exausto, mas com grande chave de ouro, a saga do Um Anel, que tem que ser levada para Mordor para ser destruída e eliminar com a ameaça de Sauron, o Senhor do Escuro.

Se todos os aspectos da literatura tolkieniana, como o seu universo detalhado pela belíssima direção de arte ou a poesia como no monólogo de Sam (Sean Astin), no último filme da trilogia, o que se destaca é o embate e a redenção. O fim do Um Anel, as resoluções das jornadas de Frodo (Elijah Wood), Aragorn (Viggo Mortensen), o elfo Legolas (Orlando Bloom), o anão Gimli (John Rhys-Davis) e o agora, mago branco Gandalf (Ian McKellen). Todos lutarão em prol do cumprimento da missão de um pequeno indivíduo que terá que transpassar exércitos terriveis de Orcs e a loucura do Gollum/Smeagle (Andy Serkis).

Peter Jackson eleva o nível da palavra épico, principalmente na batalha de Gondor, quando homens e orcs se enfrentam e o roteiro ainda trás gratas surpresas com o rumo da história, dando destaque para cada um presente na guerra, como Éowyn (Miranda Otto), que têm uma passagem tremendamente importante, uma personagem forte que deseja lutar ao lado dos homens do que esperar por eles em sua casa. A saga de Tolkien pouco a pouco, chega a seu momento derradeiro, já que apesar de lutas e mais lutas contras as forças de Sauron, através de diversas tramas paralelas, que ao todo divergem para um mesmo interesse, o mais importante é de Frodo e Sam, que precisam lidar com a sedução do Um Anel e a cobiça traiçoeira de Gollum, em meio a um caminho cheio de perigos.

Mas se em questão de roteiro, o cineasta, Philipa Boyens e Fran Walsh transpuseram na tela muito bem, o universo da Terra-Média, ela peca pela metragem excessiva, num longuíssimo terceiro ato, ainda que feche o arco de cada personagem, mais uma vez numa belíssima narração de Sean Astin, embalada pela literatura tolkieniana.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King) é a grande catarse, o enfrentamento do mal, por isso é normal que maior parte do filme seja mais ação, dando destaque para as grandes batalhas, pecando em pequeníssimas coisas - um grande feito devido a grandeza dos livros na cultura e sua importância - que são perdoadas devido a qualidade do roteiro, da direção, das atuações e dos quesitos técnicos, importantes para a construção de um universo vasto e rico, criado a partir da mente de um autor que enxergava na fantasia, um reflexo do mundo real (J.R.R. Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis na época da Segunda Guerra Mundial e foi dividido em três livros devido ao preço do papel para edição devido ao conflito).

Uma grande obra do cinema para uma grande obra da literatura moderna.

Nota: 9,5/10,0




Trailer: