terça-feira, novembro 18

Crítica: Interestelar (2014)


Por Maurício Owada

"O infinito se perde a busca obsessiva da lógica
de Christopher Nolan"

Se em 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968), Stanley Kubrick abria mão de toda a verossimilhança do cenário futurista que ele e Arthur C. Clarke imaginaram, para filosofar sobre a condição humana perante o universo de modo sensitivo, numa viagem transcedental que levou o gênero de ficção-científica ao patamar de pura reflexão, além de apenas elementos futuristas ou espaciais. Anos se passaram e a influência da obra-prima de 1968 se mostra presente em muitas divagações existenciais de filmes do gênero dos últimos anos, sejam de abordagem espacial ou não. 

Christopher Nolan é um diretor que fez sua carreira com tramas engenhosas e reflexões diante das condições de seus protagonistas, a própria trilogia do Batman segue essa abordagem, assim como a rivalidade de mágicos em O Grande Truque (The Prestige, 2006) a confusão mental de Guy Pearce em Amnésia (Memento, 2000), a culpa em Insônia (Insomnia, 2002), além do conflito entre o consciente e o subconsciente em A Origem (Inception, 2010). Desta vez, Nolan busca resposta além da Terra, sai da busca pelos conflitos internos para entender o universo em Interestelar (Interstellar), mas sua busca constante pela resposta definitiva dá pouco espaço pra refletir sobre o infinito.

Sempre obcecado pelas explicações constantes, Nolan sempre demonstrou uma certa problemática de linguagem, ficando mais evidente em A Origem e ainda que Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), seja seu filme com o roteiro mais estruturado (além de ser o mais brilhante da sua carreira, já que tivemos um inspirado Heath Ledger em tela), apresentava furos de roteiro que passavam disfarçado como uma trama engenhosa, devido ao teor "cebeçudo" de suas obras. Interestelar carrega dois desses dois pecados no estilo de Nolan, ainda que em alguns momentos as explicações sejam necessárias para entender o que acontecerá, isso se torna recorrente e tira um pouco do brilho do espaço que Nolan filma tão belamente a partir de enquadramentos que tomam o ponto de vista da nave ou do astronautas, seguindo a pegada de Alfonso Cuarón em Gravidade, buscando retratar mais a vastidão e a solidão do espaço.

Num futuro próximo, quando uma praga tomou conta e eliminou todos os tipos de comida, sobrando apenas o milho, o que deixou a humanidade a beira do apocalipse e fazendo com que todos se tornem fazendeiros, mas a praga e a poeira que se espalham pela Terra se tornam cada vez mais contínuos e os recursos naturais ficam cada vez mais escassos, o que leva a NASA, agora um setor secreto com financiamentos secretos do governo (devido ao contexto das pessoas tentando lutar por comida), buscar levar homens aos recantos mais longíquos do universo para encontrar planetas habitáveis para os seres humanos, utilizando como atalho os buracos de minhoca, que os levarão pra outras galáxias. Com uma trama que se equipara a uma grande obra de ficção-científica, Nolan constrói muito bem o contexto da Terra num tom até spielberguiano, cujo melodrama familiar pode desagradar alguns (levando em conta que o roteiro original de Jonathan Nolan, irmão do diretor, foi feito para Spielberg), mas as atuações ótimas de Matthew McConaughey e da jovem Mackenzie Foy ajudam a criar o laço necessário para que o público se importe para todo o conflito sentimental do filme.

Apesar dos vícios de atuação e dos mesmos trejeitos em cena, Matthew McConaughey demonstra um talento ímpar em trazer a dramaticidade dos seus personagens a tona e possui uma presença forte, desde que saiu da zona de conforto das comédias românticas. Mas com um elenco tão estelar (perdão pelo trocadilho óbvio, principalmente pela obviedade do trocadilho), Nolan aproveita muito pouco e os diálogos pouco bem trabalhados, chega a soar disforme com o tema, como uma das falas da personagem de Anne Hathaway sobre o 'poder do amor'. Talvez seja esse o defeito maior do roteiro de Jonathan e Christopher Nolan, ficarem expondo falas quando a contemplação devia ser o foco, assim como alguém conversa ou come pipoca numa cena silenciosa, quando se a atenção do público é exigida. E isso não é problema apenas do roteiro, mas da própria direção, que tem medo de que o público fique sem entender, quando já se dispõe a trabalhar com o infinito desconhecido, algo além do nosso alcance.

Em partes técnicas, os filmes de Nolan são sempre um primor e esse não é diferente e deve conquistar muitos prêmios nesse quesito, utilizando de maiores efeitos práticos e um pouco menos do uso de CG, apenas quando necessário e a cena do buraco negro, apesar de cientificamente impossível (lembrem-se, ficção-científica, é pautado na ciência, mas não é puramente ela fiel em tela), a sensação de desolação, medo e imersão é de um primor que é de se lamentar que o cineasta não tenha a mesma mão para a narrativa. A fotografia foge da paleta de cor azul fria comum na filmografia do diretor e a trilha-sonora de Hans Zimmer é uma atração a parte, utilizando da boa escolha de uma música menos presente e mais sutil, remetendo a trilha do clássico de Kubrick.

Interestelar queima suas asas na própria ambição de atingir o Sol ou algo além dele, se em outros filmes, que ele explorava o interior humano, já era expositivo até demais, aqui o pecado é maior ainda, já que no espaço, se predomina o silêncio. E levando em conta os inúmeros blockbusters que se passam, a ficção-científica de Christopher Nolan é uma ousada produção, uma boa pedida diante de tantos filmes vazios dentro da indústria tão escassa em novidades e obras com mais sustâncias e muitas vezes, um cineasta pretensioso é sempre bom para um mercado cinematográfico em declínio, produzindo coisas originais, ainda que erre a mão tentando.

Nota: 7,5/10,0




Trailer:

4 comentários:

  1. É um filme que começa muito bem, tem um segundo ato incrível, mas derrapa feio no terceiro ato. Ainda assim é um filme bom, mas cheio de problemas.

    http://filme-do-dia.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Particularmente, admiro os filmes do Nolan, em especial "Memento", que, para mim,continua sendo o melhor filme dele.

    Logo, involuntariamente, fui consumido por altas expectativas ao ir para o cinema assistir "Interestelar" e realizando uma breve análise do filme: não considerei o primeiro ato fastidioso (como muitos estão dizendo), pois ele foi útil para apresentar as relações entre pai e filhos de modo a despertar em nós, um apreço por essa ligação forte entre eles. Para mim, o primeiro ato transcorreu de forma espontânea, recordando vagamente o início de "Sinais" [SPOILERS](Aliás, se em "Sinais", a estranha mania da menininha de deixar copos de água espalhados pela casa salvou sua família, em "Interestelar" a insistência da Murphy em afirmar que há um fantasma no seu quarto, revela-se a chave para a futura salvação da humanidade. Dois filmes que abraçam intensamente o aforismo: "Nada é por acaso").[FIM DOS SPOILERS]

    Nesse contexto, a passagem do primeiro para o segundo ato me incomodou por ser deveras apressada, pois, repentinamente, nos é informado que Cooper é o melhor piloto da Nasa e que ele foi escolhido, apenas, por ter descoberto o local secreto.

    Em relação ao segundo ato, representa o melhor momento do filme, a exploração em si, as pausas contemplativas, os cenários de uma beleza sublime, os momentos de maior tensão. No que concerne às explicações excessivamente expositivas características de Nolan, elas não me incomodaram muito, foram didáticas e justificáveis, dada a complexidade do tema abordado. Porém, em alguns momentos, foram exaustivas e desnecessárias quando tentaram verbalizar o amor, como você citou em relação ao discurso Dra. Brand (Anne Hathaway).

    O terceiro ato possui seus problemas (o Amor como sendo resposta de tudo, por exemplo), porém, não o considero desastroso. É um ato que dialoga diretamente com o primeiro e que é passível de distintas interpretações.

    Enfim, gostei da sua crítica Mauricio, foi uma das melhores de tantas que já li sobre o filme.

    O Mundo Em Cenas

    ResponderExcluir
  3. Obrigado Vitor Costa! Desde jovem, como cinéfilo, admiro Nolan e ainda gosto dos trabalhos dele e como ele busca um cinema mais avantajado numa indústria quadrada e preguiçosa, fazendo com que alguns executivos percam dinheiro em prol da criação de uma obra de arte (o filme não anda tão bem como esperavam).

    Ainda que tenham derrapadas, as de Interestelar é mais considerável do que a do último filme do Batman, já que o diretor se arrisca num terreno pouco conhecido e busca certas mudanças no seu cinema. Ainda que problemático, gosto da vontade dele de fazer cinema de verdade, mas acho que ele precisa ser menos inseguro em relação ao que ele deixa na trama, sei lá, não precisa necessariamente deixar algo sem resposta, mas deixar o público imaginar mais...

    Abraços

    ResponderExcluir
  4. A menção do filme O Grande Truque me lembra da nova serie HBO O Hipnotizador , a produção brasileira é muito bem sucedido para a história de um homem que revela segredos enigamatico seus pacientes com a hipnose, mas esta é uma ciência como efeciva magia aparece.

    ResponderExcluir

Aqui é o seu espaço, pode deixar seu comentário, sugestão ou crítica que logo iremos respondê-lo!